18.3.13

 

é como se as esquinas todas existissem só pela função de te abrigar e você estivesse agora em uma delas esperando por mim.
como você ousa tornar todas as esquinas e esperas inuteis?
e quem é você pra desmerecer os cantos da cidade que só nasceram pra ter seus pedaços?
 

27.2.13

a única coisa que eu tinha para te oferecer era o risco. e eu, como boa amante do incerto, nunca vou entender por que o cômodo venceu.
você partiu como sempre parte. foi como sempre vai.
eu nunca vou entender por que você trocou uma aventura nova pela mesma aventura de sempre.

Você precisa saber de mim


a vida é sempre uma aventura quando a sensação de deixar o chão é também o

sentimento de ir pra casa.
onde quer que seja minha casa.

10.11.12

tudo nela se doava
tudo nela se doía
Eu fiz minhas malas, fiz minhas promessas, eu fiz o possível para soltar as amarras em volta do meu pescoço. Eu fiz minhas escolhas e fiz meus planos.
Fiz tudo o que soube e aquilo que não sabia.
Tanto fiz e agora não sei o que fazer de mim.

quase

a minha maior tragédia foi não ter vivido nenhuma tragédia.
agora corro em círculos em busca de qualquer ação que a vida possa me oferecer. eu me atiro da janela, eu grito, eu perco a voz e me perco. eu busco mais e me busco, eu sonho e não me lembro.
uma tragédia me faria escrever de verdade. não esse lixo todo que não me satisfaz, seria biógrafa dos meus dramas, amante dos meus pecados. uma tragédia jusificaria minha dor, explicaria meus anseios, calaria meu turbilhão. tragicamente, eu encontraria um foco.
qualquer quase morte como assunto, qualquer assunto que não me faça sentir uma fraude entre os artistas e reais sofredores, qualquer causa para a minha rebeldia.
qualquer quase morte para a minha quase vida.

4.10.12

"Dublin is too cold to be alone"
eu disse e ele concordou
"but you are not alone"

17.7.12

despedidas

cena I - junho.
sol chegando, trem partindo.
tudo que era pra ser ficando na estação.

cena II - o inverno já era fato.
augusta.
fim de noite, mas em são paulo nenhum momento parece o fim.
o cara que tem resposta para tudo e não pergunta demais.
a moça que fala muito e não diz nada.

_eu fui o amor da sua vida por uma noite
_(você foi o amor da minha vida por uma semana)

27.6.12

a noite é uma vadia


uma puta suja
uma acompanhante paga
que sempre me cobra no final
vem sem maldade
esvazia meus bolsos
me deixa bêbado
sem casa
sem hora
senhora
a noite é uma vadia perversa que não me deixa dormir
tão linda
tão fria
tão minha
tão de todos
e de ninguém

10.1.12

faz frio e venta ou chove e faz calor. a janela se mantém fechada.
fico doente do tempo: das temperaturas e dos relógios.
fico enferma de tanto me fechar.
não por causa do frio e das dores de garganta, da tosse que me engasga; me fecho em fuga, em correria, me guardo das pessoas e das responsabilidades.
não posso com as obrigações de ter alguém.

23.12.11

reflexo

eu tenho pena de você
da sua boca manchada de pressa
dos seus olhos carregados de maquiagem e água
do sorriso que já não sabe mentir

eu tenho pena de você
que me encara de frente
que me engole e me decifra
que me julga sem cuidado

eu tenho pena de você
sem saber que pena é tristeza.
fico triste por você
fico triste por mim.

12.12.11

você não sabe o que é morrer todo dia só pra ter certeza de que está viva

6.12.11

nunca fui de ninguém mais do que sou minha.

estou em mim de tantas maneiras que não posso mais dividir-me nos outros

escorar-me em ombros, largar-me em bocas, atar-me em laços

sou minha, só minha.
tão minha, que me canso de mim.

7.11.11

você compraria um ingresso pra assistir a história da sua vida no cinema?

28.7.11

Sou sozinha no quarto vazio.
Sou sozinha no quarto cheio de mim.

3.7.11

O dia em que matei meu pai

Eu precisei fazer isso. Não é da minha natureza, eu sei, foi instinto, foi loucura, foi momento e nada justifica, entendo, mas ouça o que eu estou tentando dizer: que morte não é fim, é transporte e às vezes matar alguém é a forma mais bonita de colocar essa pessoa num lugar digno e respeitável.
Ele estava na minha frente e fazia frio, ele ria do meu futuro, ridicularizava minhas escolhas e mais uma vez (como eu odeio esse homem, como eu odeio ele) seu corte de cabelo me irritou, seu nariz, meus traços distorcidos em seu rosto (eles riam de mim, não pude evitar), tudo aquilo que eu tentei mudar pra apagar sua existência, gritava. Eu não queria a genética em evidência, sua voz, sua fala pausada, oh, o que eu fiz, me diz, me ajuda a fugir. Pra não destruir tudo, só pude destruir.
Por muitos anos vivi uma culpa que não me cabia, culpa vã, triste. Não amava meu pai e sofria por acreditar imoral. Mas você tem que amar, diziam, é seu pai. Como se o simples fato de fornecer material genético o livrasse de seus pecados, como se uma noite de sexo perdoasse sua ausência. Mas mesmo o amor familiar é conquista, a convivência talvez o crie, mas a falta de intimidade destrói. Nunca amei, não mereceu, não mereceu nada que viesse de mim.
E eu estava perto demais, o silêncio que era meu tesouro estava quebrado (quem mandou entrar nos meus pensamentos?), seus olhos refletiam minhas falhas, minhas fraquezas, todo o amor excessivo que eu espalhei por me faltar, minha cegueira emocional (tive vontade de vomitar e não tinha comido, nem colocar pra fora eu conseguia), quanta merda eu fiz, quanta gente bagunçou minha vida, me machucou e eu deixei, quanta falta de tato em relações e relacionamentos e é tudo culpa sua. Você e sua vida infeliz, você e seus olhos sem amor, seu coração gelado. Por que você não morreu antes? Por que eu precisei fazer isso, por que minhas mãos é que tiveram que se sujar com seu sangue nojento? O mesmo que o meu e tão sujo. Tudo que vem de você é sujeira e eu precisei ver sua vida ir embora na minha frente pra acreditar que finalmente estava livre. E você continua nos meus sonhos. Infeliz. Vá logo das lembranças, eu te exorcizo, eu te expulso, não te quero.
Matar você foi a melhor coisa que eu já fiz. E a pior. E com tudo o que você já me fez passar, com cada conto de merda, resumo a obra pro mundo: meu pai morreu. Acidente. Já faz tempo, tudo bem. Não se preocupa, já passou. É, eu contaria essa história.
Não tenho vocação pra filha desamparada e aquele homem ria do que não tinha graça. O que eu poderia fazer? Eu diria que ele fez Édipo ter sentido, que distorceu a imagem de herói na minha cabeça, que me fez desconfiar até das melhores intenções e que é um filho da puta que eu odeio, mas nada disso faria sentido, nada disso afetaria sua arrogância. É desse sorriso que eu tenho mais ódio, como pode sorrir alguém que faz mal aos outros, como pode ser que não exista justiça divina ou qualquer merda dessas? Porque se o castigo dele é a solidão, porra, estou sendo castigada também e essa merda não devia acontecer. Ir pro buraco e me arrastar junto, isso é errado. Assim como é errado o que eu fiz.
Vi o sangue ir todo embora e manchar o chão e manchar meu dedos, assisti seus olhos se revirando, mais vivos do que nunca e tudo isso começou a doer em mim. E então era eu quem sangrava e dos meus olhos saiam as lágrimas (ele não as possuia, por defeito de corpo ou de caráter). Doeu tanto em mim porque eu percebi que jamais conseguiria ser igual a ele, por isso não poderia matá-lo. Eu não fui até o fim.
Acordei com o rosto vermelho de choro, o travesseiro úmido, o coração apertado. Um novo pesadelo e o mesmo pai ausente. E vivo. De sempre. De nunca mais.

6.4.11

desconexo

solidão não é o frio da cama vazia
solidão é o frio da festa lotada
quando não tem ninguém

estar sozinho não é viver em um espaço vazio
é ter um espaço vazio vivendo dentro de si
quando não tem ninguém

são as conquistas sem ter com quem dividir
e essa madrugada gelada
e a vida incompleta
quando não tem ninguém

solidão é ter muito o que dizer mas não ter com quem falar.
escrever é falar com ninguém
e as palavras são a forma mais cruel da solidão.

5.4.11

"Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo."

Machado de Assis

15.2.11

atriz

_Você devia ser atriz - ele disse mais tarde.
_Por quê?
_(porque eu consigo ver suas mentiras estampadas nos cartazes de cinema e seus dramas proclamados na televisão, o palco preenchido com sua voz e sua história fingida, porque você me olha e não está aqui, seu olhar foge, sua mente passeia por sei lá onde e seu coração inexistente não bate)... Não sei. Foi uma ideia. Acho que você leva jeito.

E ela sorriu incógnita, porque ele nem desconfiava do quanto ela já estava atuando naquele momento.

8.2.11

Deitou a cabeça em seu peito e não ouviu nada.
_Você não tem coração?, ele perguntou.
_Não.

24.1.11

Eu só largo tudo pra trás porque não tenho o que deixar.
Acredite, não ter a quem dizer adeus tem a mesma dor de se despedir.

2.1.11

tinha algumas obsessões que confundia com amor porque era tudo o que conhecia; e porque os sintomas das doenças são mesmo parecidos com os da paixão.
quando os lábios sorriam, os olhos não sabiam imitar.

26.12.10

A vida é complicada quando não se acredita em nada. É preciso depositar toda a fé de nada em si e fazer sozinho o que um deus faz pelos outros, ser dono dos próprios milagres. Não é fácil ser seu próprio deus.

19.12.10

vou embora
porque preciso conhecer o mundo
ou porque preciso de um objetivo
porque não ter sonhos causa depressão
e falta de amor também

3.11.10

Bailarina

Rodopiou em seu equilíbrio e desenhou uma esfera ao seu redor. Mais uma vez acabou na redoma invisível com lugar para uma só pessoa. Quis dividir o espaço e não tinha a quem chamar, gritou e ninguém respondeu. Tirou as sapatilhas, jogou contra a parede com a maior força do mundo, acertando o espelho que rachou em milhões de pedaços.
Tinha o coração cansado e os pés moídos de ensaios sem apresentações, tinha os sentidos fartos de tanto se guardarem para o final que nunca chegava. Conhecia bem a dor de quem dança sozinho uma dança de se dançar a dois. Conhecia o medo e a ilusão como se estes fossem seus grandes companheiros da vida.
Invejou a simplicidade daqueles que desconhecem seus próprios pensamentos. Por um momento quis cair sem encontrar chão pelos próximos 20 segundos, talvez mais. Desejou um pouco de adrenalina e medo da morte pra se sentir viva, depois sorriu por sabê-lo absurdo.
Buscou as sapatilhas do outro lado do salão, guardou na bolsa e calçou os tênis. Viu seu reflexo rachado e sentiu-se bonita cortada em vários pedaços. Pensou que essa imagem era mais real do que qualquer outro espelho, dividida em partes e partida ao meio. Espetou o dedo na ponta de um caco afiado só para ver o vermelho formar uma bolha. Apagou as luzes, apagou as memórias. Vestiu um sorriso e foi pra casa fingir que tudo estava bem.

2.11.10

sereia

Às vezes a impressão que tenho é que estou nadando com um objetivo muito claro: o lado mais fundo do oceano. Eu nado, nado, nado simplesmente pra conferir se tenho um motivo pra nadar.
Eu que sou sereia, não posso me dar ao luxo de morrer afogada.